
- maldita tempestade de areia. - disse o co-piloto.
- pelo menos quebrou o tédio da estrada.
- falar do tempo sempre me deixa encafifado sobre a estupidez das minhas palavras, mas confesso que trocaria qualquer palavra, mesmo as inteligentes, pela simples observação da paisagem.
- deixa de ser retardado, eu fico o tempo todo concentrado nessa faixa estreita e continua de asfalto enquanto você deixa seu pensamento vagabundear pelas planícies. A paisagem também é um resultado do "tempo", assim como nosso diálogo.
- depois vai ser minha vez de dirigir e você pode fazer o mesmo.
- não tem graça.
- dirigir é que não tem graça.
- não tem graça ficar em silêncio, eu digo.
- e eu me preocupava com a estupidez, mas ok. Pense no seguinte, estamos enfurnados neste veiculo no meio do nada, estamos indo para lugar nenhum e provavelmente quando lá chegarmos teremos que lidar com os mesmos demônios que enfrentávamos antes.
- não podemos fugir de nós mesmos.
- isso, mas o pior de tudo é que o automóvel é a invenção mais estúpida para o movimento. é um maldito aquário com rodinhas.
- tá, mas vamos ao menos cruzar o deserto... ai nós pegamos uma carona ou andamos a pé.
- tanto faz, só não exija um diálogo nessa pocilga.

- desistir?
- Existir, eee-xistir. Saca? Até tenho saco para toda essa merda, mas minha parede estomacal é fina igual uma seda... por isso eu sou uma "mocinha" em alguns sentidos.
- vixi cara que onda, esse lance de desistir é mó palha.. você quer conversar?
- nem um nem outro.
- qual outro? só falei de conversar.
- o outro é ter que te ouvir.
- vixi cara, você tá mal hein? é aquela tal febre de estômago que você tanto fala te atacando denovo?
- nem é... sabe o que aconteceu?
- não.
- o dia foi bem longo e por dia eu entendo, não o período em que o sol ilumina meu pedaço de terra, mas o tempo em que tenho as pessoas e sua radiante mesquinharia no meu horizonte.
- por isso você é um cara "noturno"...
- por isso que eu to saindo fora bixo.




- É complicado se você parte de um referencial estático.
- Isso deveria conferir à minha interpretação uma estabilidade necessária ao entendimento.
- Esse não é o espírito do nosso tempo. E mesmo assim, quem disse que você está exatamente estático, nesse momento tem toda uma ação do tempo correndo seu âmago.
- Você ainda pensa em espírito soterrado por tanto asfalto e concreto?
- O paradoxo joga conosco, né?
- Tudo está assustadoramente vazio, a existência parece uma piada de mau-gosto e mesmo assim a idéia de jogo, por mais rasteira que seja, ainda encanta um número enorme de construções desencantadas.
- Como assim?
- Veja, somos escombros, somos amigos e na maior parte do tempo não precisamos desses mecanismos, mas se aparece um terceiro edifício nós ficaremos tentados a jogar. Tentar influenciar o comportamento alheio, sugerir, ironizar e, caso esse terceiro prédio seja uma bela Biblioteca ou Taberna o jogo ganhará uma conotação sexual que sem um desenlace correspondente só reforça a miséria do cotidiano urbano.
- É a arquitetura egoísta. Isso está em nossos pilares – disse o prédio baixinho de escritórios.
- E como você explica os condomínios?
- O egoísmo me parece uma inveja que reflete para dentro, uma auto-imagem que se mantém, mas ainda assim precisa de algo exterior para existir. Você só pode ser egoísta em relação à outra construção. Não sei direito. O princípio é supostamente autônomo, mas a rivalidade interna que ele suscita – a afirmação individual do edifício em contraponto com a sua integração à cidade – demole intrinsecamente sua auto-justificativa.
- Você não acha que isso é pensamento demais para nossa caixa d’água?
- Não sei, tomara que nosso arquiteto tenha feito um cálculo estrutural para agüentar toda essa merda.
- Tomara.

Essa que conto é a história do Niño Lobo, o garoto amante das florestas e das derivas no mato, ele preferia quando era uma longa e alucinante descida, pois jogava-se por entre as galhas em alta velocidade, quanto mais se arranhava mais sentia seu corpo impenetrável. Por mais que espinhos e pontas de galho as vezes se comportem dura e violentamente, sentia-se como uma pipa cortada flutuando levemente pelo céu. Gostava da floresta porque um dia achou um "pé de gente" e sempre que queria uma mina pegava ela madurinha no pé.
ps.: também gostava dos feixes de luz que atravessavam as folhas.

- se te dissesse que nunca mais serei o mesmo.
- não sei o que isso significa, mas acho que você deve escrever isso.
- quantas vezes?
- quantas forem necessárias para limpar sua alma.
- não tem papel, madeira ou areia de praia suficiente para isso.
- se precisa escrever tanto assim é melhor começar logo.